
Ela era Malu, aquilo era Gabriel. Os vôos que haviam levantado acabaram distanciando de vez aquelas duas criaturas que há tanto tempo estavam acostumadas uma a outra. Malu já havia experimentado essas sensações algumas vezes, mas desta vez elas haviam provocado cicatrizes mais profundas. O buraco que se formou na boca de seu estômago fazia com que o ar que entrava em seu corpo enquanto respirava ecoasse em sua mente conturbada. Seus olhos já haviam perdido o brilho que só voltava nas horas que se colocava a chorar. Suas pernas já não sabiam para onde andar, e suas mãos pareciam querer encontrar algo impossível. Os dias de sol já não lhe importavam, pois a única coisa que a confortava era a escuridão de seu quarto. As bagagens pesadas que trouxera outrora de suas viagens pareciam pesar-lhe em suas costas, e nas quatro paredes que a envolviam, as únicas coisas que se faziam presentes eram a carga das malas e a saudade do que um dia a mantivera com os pés no chão. Gabriel parecia não se importar com a distância provocada, e continuava a voar na imensidão. Seus vôos eram cada vez mais altos, e suas viagens cada vez mais longas. Ele já estava envolvido com os prazeres do mundo, e cada vez mais se acostumava com a liberdade proporcionada pelo ar. Às vezes pensava em Malu, mas o não entendimento do porque ela também havia voado acabava provocando a raiva ao invés da saudade. Claro que algumas vezes mesmo envolto por uma multidão ele se sentia solitário e era nessas horas que seu coração se enchia de ternura quando lembrava do sorriso dela que tantas vezes iluminou o seu rosto. Surgia então a vontade de vê-la, ouvi-la e quem sabe abraçá-la, e quando parecia que ia pousar, o vento o soprava o mais alto que podia, e quando se dava conta a vontade já havia passado. Malu não tinha o vento a seu favor para esquecer o que almejava, suas vontades permaneciam dia a dia, hora a hora, minuto a minuto e os questionamentos de como Gabriel conseguia torná-la invisível atormentavam-lhe o tempo todo. Fechada no quarto escuro ela não conseguia enxergar as possibilidades, enquanto ele lá do alto enxergava perfeitamente todos os lugares em que poderia pousar, de lá só não avista Malu, que envolvida pela escuridão não permitia ser enxergada.
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